SOBRE A TERRA
[exposição individual - Museu de Artes e Ofícios]


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A pesquisa de Brígida Campbell tem origem na cidade e na experiência direta do espaço urbano. Durante muitos anos, investigou seus usos, fluxos e formas de organização a partir da presença do corpo no espaço público e da observação direta como método. Nesse contexto, a arte tornou-se uma forma de atuar na dimensão imaginativa dos territórios, propondo deslocamentos perceptivos e experimentações que ativam outros modos de habitar, sempre em diálogo com processos coletivos e com a produção dos espaços comuns.

Com o tempo, essa investigação evidenciou os limites da própria ideia de cidade como espaço exclusivamente construído. Ao observar o urbano, Brígida passou a reconhecer a presença constante da natureza, plantas que emergem nas frestas, rios soterrados, terra sob o asfalto, o ar, a sombra e sua ausência, assim como os modos culturais que organizam nossa relação com o mundo natural. Cidade e natureza passam, então, a ser compreendidas como dimensões contínuas de um mesmo ambiente, atravessadas por tensões, interdependências e transformações.

Esse deslocamento se manifesta diretamente em seu trabalho artístico. Pintura, colagem, desenho e ilustração, em diálogo com a ilustração científica e com saberes populares associados às plantas, tornam-se centrais em sua produção. A botânica não aparece como tema ilustrativo, mas como ferramenta poética e crítica para pensar formas, estruturas e processos vegetais, bem como os sistemas de representação e os modos de convivência entre espécies.

As obras se constroem a partir de um pensamento essencialmente gráfico. Antes de se materializarem, organizam-se em esquemas, anotações, experimentações e desenhos que orientam o processo. Texturas, cores, camadas e gestos visuais operam como campos de pensamento, articulando observação, imaginação e experiência sensível. Embora profundamente conectados ao mundo natural, os trabalhos incorporam referências à cultura visual urbana e digital, visíveis no uso de spray, canetão, tintas sintéticas e procedimentos gráficos associados ao espaço público.

Os encontros com plantas, paisagens, fungos, imagens e materiais do cotidiano são decisivos nesse processo. Não se trata de representação, mas de contaminação sensível: o vegetal, o humano e o imaginário se atravessam sem hierarquias fixas. Em vez de traduzir ou ilustrar a natureza, as obras produzem condições de convivência estética com ela, criando situações em que diferentes formas de vida, materialidades e narrativas se afetam reciprocamente.

Pode-se dizer que sua produção opera na lógica da simpoiese, o “fazer-com”, como princípio estruturante. Imagens, cores, matérias e gestos coexistem como parte de uma ecologia compartilhada, na qual nada é produzido de forma isolada. As obras tornam visível essa zona de troca contínua, acolhendo o processo, o inacabado e o desvio como modos de conhecimento, e afirmando a criação artística como participação ativa em ecologias relacionais, construídas no encontro, na coabitação e no cuidado com os mundos que produzimos juntos.


Bruno Vilela















  • Intemperismo, ou meteorização, é o processo físico e químico de decomposição e desagregação de rochas na superfície terrestre, moldando o relevo e formando o solo. Ele ocorre através de diferentes tipos, como físico (desagregação mecânica), químico (decomposição por reações químicas) e biológico (ação de organismos vivos).


Espírito das plantas


2025
Tinta acrílica sobre tela
20x20 cm cada

Durante a residência artística Sol da Meia-Noite, desenvolvi esta série de pinturas como uma investigação sensível sobre os vínculos entre o humano e o vegetal. As figuras emergem como híbridos, corpos que são também folhas, gestos que lembram brotos, revelando uma contínua metamorfose entre matéria viva e imaginação. O fundo escuro funciona como um campo fértil, onde formas luminosas se expandem e respiram, evocando ciclos de crescimento, regeneração e comunhão com o ambiente.

Essas imagens nasceram de uma escuta atenta da natureza e da cultura peculiar do nordeste, que transforma a percepção do tempo e do corpo. As figuras parecem se mover entre a fotossíntese e o sonho, entre o gesto humano e o impulso vegetal. São tentativas de captar um estado de transição, o instante em que a vida se manifesta como energia compartilhada, vibrando entre o visível e o invisível.



O que vejo quando fecho meus olhos


série de pinturas
Tinta acrílica, posca, spray e bastão de óleo sobre tela.
60x60 cm 
2024-2025

Há uma dualidade na escuridão. No solo, abaixo da terra, onde o olhar não alcança, a escuridão é fértil e viva, uma matriz de crescimento, vida e transformação. Já na noite, ela é vasta e misteriosa, um espaço onde o conhecido e o desconhecido coexistem. Precisamos apreciar a complexidade do mundo invisível, reconhecer a vida que floresce na escuridão e aceitar o mistério como parte intrínseca da experiência humana. A noite, em sua imensidão, oferece uma tela para sonhos e medos, onde criaturas desconhecidas habitam tanto a terra quanto as profundezas do subconsciente humano. A fauna e flora noturna, sugerida por sombras e silhuetas, desafia nossa compreensão e nos lembra da beleza e do terror do desconhecido. É um lembrete das inúmeras formas de vida que prosperam na ausência de luz, se adaptando e evoluindo em um mundo subterrâneo raramente visto. Neste espaço, raízes se entrelaçam em uma dança silenciosa, alimentando e sendo alimentadas pelo solo que as sustenta.

















120x120 cm

Arquivo Invisível

2024


Nesta obra, construo uma narrativa visual que se articula entre natureza, simbolismo e identidade, explorando a ideia de coleção e memória visual ao reunir uma diversidade de imagens que dialogam entre si e com o espaço ao redor. Em uma abordagem que mescla colagem, pintura e ilustração, organizo fragmentos simbólicos, mãos, luas, cobras, borboletas, figuras humanas e vegetais, em uma composição que conecta o natural e o humano, o pessoal e o coletivo. Cada elemento funciona como uma peça de um arquivo poético, ao mesmo tempo íntimo e universal, que busca evocar a complexidade da experiência humana em relação à natureza. A disposição desses elementos, combinada ao uso de cores e padrões repetitivos, sugere um fluxo contínuo de tempo e transformação, onde cada imagem carrega histórias e significados que ultrapassam o visível, revelando meu olhar atento à potência simbólica de cada figura.