MAGIA VEGETAL



Magia Vegetal propõe uma investigação sensível sobre os múltiplos modos pelos quais as plantas foram, ao longo do tempo, reconhecidas como portadoras de forças que atravessam o espiritual, o terapêutico, o técnico e o científico. As imagens desta série buscam evocar um campo de relações no qual o vegetal aparece como mediador entre mundos, saberes e temporalidades. Em práticas religiosas e espirituais, as plantas operam como canais de comunicação, proteção, cura e transformação, ativadas por rituais que envolvem gestos, palavras, ritmos e intenções, onde a eficácia não reside apenas na matéria, mas na rede simbólica e cosmológica que a sustenta. Nas tradições médicas e terapêuticas populares, a magia vegetal se manifesta como conhecimento incorporado, transmitido pela oralidade e pela prática, em que chás, banhos, benzimentos e infusões articulam corpo, afeto, memória e cuidado. Já no campo técnico, ela emerge no fazer cotidiano do cultivo, do manejo da terra e da atenção aos ciclos naturais, revelando um saber relacional que se constrói na convivência prolongada com organismos vivos. Mesmo na ciência moderna, voltada à classificação, experimentação e análise, a magia persiste como aquilo que escapa ao controle total: a complexidade dos ecossistemas, a inteligência distribuída das plantas, suas formas de comunicação, adaptação e cooperação. A magia não é uma oposição à razão, mas sim uma forma ampliada de sensibilidade, na qual o vegetal deixa de ser apenas objeto de uso ou estudo e passa a ser reconhecido como sujeito de relação.




Vegetal Magic proposes a sensitive investigation into the multiple ways in which plants have, over time, been recognized as bearers of forces that extend across the spiritual, therapeutic, technical, and scientific realms. The images in this series seek to evoke a field of relationships in which the vegetal appears as a mediator between worlds, forms of knowledge, and temporalities.

In religious and spiritual practices, plants operate as channels of communication, protection, healing, and transformation, activated through rituals involving gestures, words, rhythms, and intentions, in which efficacy resides not only in matter itself, but in the symbolic and cosmological network that sustains it. In popular medical and therapeutic traditions, vegetal magic manifests as embodied knowledge, transmitted through oral tradition and practice, in which teas, baths, blessings, and infusions bring together body, affect, memory, and care.

In the technical realm, it emerges through the everyday practices of cultivation, land management, and attention to natural cycles, revealing a relational form of knowledge built through prolonged coexistence with living organisms. Even within modern science, oriented toward classification, experimentation, and analysis, magic persists as that which escapes total control: the complexity of ecosystems, the distributed intelligence of plants, and their forms of communication, adaptation, and cooperation.

Magic is not an opposition to reason, but rather an expanded form of sensitivity, in which the vegetal ceases to be merely an object of use or study and comes to be recognized as a subject of relation.







CANTEIROS MÓVEIS
2026

Os canteiros móveis utilizam masseiras de cimento, objetos comuns da construção civil, como canteiros para o cultivo de plantas. Deslocadas de sua função original, essas estruturas passam a acolher terra e processos de crescimento e decomposição, aproximando o universo da construção urbana dos ciclos das coisas vivas. O cimento, material associado à cidade e à dureza da obra, é substituído por temporalidades lentas e instáveis, próprias da vida vegetal. As masseiras-canteiro apresentam ao público um processo em curso, no qual germinação, cuidado e transformação revelam a possibilidade de coexistência entre o urbano e o natural.

Mobile planters use concrete mixing tubs, common objects from the construction industry, as containers for growing plants. Displaced from their original function, these structures begin to hold soil and processes of growth and decomposition, bringing the world of urban construction closer to the cycles of living things. Concrete, a material associated with the city and the hardness of construction, is replaced by the slow and unstable temporalities of plant life. The planters present the public with an ongoing process in which germination, care, and transformation reveal the possibility of coexistence between the urban and the natural.






















Intemperismo 


série de pinturas (2025-2026)

Intemperismo, ou meteorização, é o processo físico e químico de decomposição e desagregação de rochas na superfície terrestre, moldando o relevo e formando o solo. Ele ocorre através de diferentes tipos, como físico (desagregação mecânica), químico (decomposição por reações químicas) e biológico (ação de organismos vivos).



Esta série de pinturas parte da ideia de que a escuridão não é ausência, mas potência. No solo, abaixo da superfície visível, a terra abriga processos fundamentais de transformação: decomposição, germinação, enraizamento e crescimento. É um espaço ativo, fértil e vivo, onde a vida se organiza longe do olhar imediato. Ao mesmo tempo, a noite e a escuridão acionam a imaginação humana, abrindo um campo no qual o desconhecido, o medo e a curiosidade coexistem. As formas sugeridas nas pinturas, silhuetas, organismos, raízes e presenças indefinidas, operam nesse limiar entre o que é visto e o que é imaginado, entre o mundo material e o mundo simbólico.



This series of paintings is based on the idea that darkness is not an absence, but a form of potential. Beneath the visible surface, the soil harbors fundamental processes of transformation: decomposition, germination, rooting, and growth. It is an active, fertile, and living space where life unfolds beyond immediate sight.  At the same time, night and darkness activate the human imagination, opening up a field in which the unknown, fear, and curiosity coexist. The forms suggested in the paintings—silhouettes, organisms, roots, and undefined presences—operate at the threshold between what is seen and what is imagined, between the material world and the symbolic realm.



Espírito das plantas


2025
Tinta acrílica sobre tela
20x20 cm cada

Durante a residência artística Sol da Meia-Noite, desenvolvi esta série de pinturas como uma investigação sensível sobre os vínculos entre o humano e o vegetal. As figuras emergem como híbridos, corpos que são também folhas, gestos que lembram brotos, revelando uma contínua metamorfose entre matéria viva e imaginação. O fundo escuro funciona como um campo fértil, onde formas luminosas se expandem e respiram, evocando ciclos de crescimento, regeneração e comunhão com o ambiente.

Essas imagens nasceram de uma escuta atenta da natureza e da cultura peculiar do nordeste, que transforma a percepção do tempo e do corpo. As figuras parecem se mover entre a fotossíntese e o sonho, entre o gesto humano e o impulso vegetal. São tentativas de captar um estado de transição, o instante em que a vida se manifesta como energia compartilhada, vibrando entre o visível e o invisível.



O que vejo quando fecho meus olhos


série de pinturas
Tinta acrílica, posca, spray e bastão de óleo sobre tela.
60x60 cm 
2024-2025

Há uma dualidade na escuridão. No solo, abaixo da terra, onde o olhar não alcança, a escuridão é fértil e viva, uma matriz de crescimento, vida e transformação. Já na noite, ela é vasta e misteriosa, um espaço onde o conhecido e o desconhecido coexistem. Precisamos apreciar a complexidade do mundo invisível, reconhecer a vida que floresce na escuridão e aceitar o mistério como parte intrínseca da experiência humana. A noite, em sua imensidão, oferece uma tela para sonhos e medos, onde criaturas desconhecidas habitam tanto a terra quanto as profundezas do subconsciente humano. A fauna e flora noturna, sugerida por sombras e silhuetas, desafia nossa compreensão e nos lembra da beleza e do terror do desconhecido. É um lembrete das inúmeras formas de vida que prosperam na ausência de luz, se adaptando e evoluindo em um mundo subterrâneo raramente visto. Neste espaço, raízes se entrelaçam em uma dança silenciosa, alimentando e sendo alimentadas pelo solo que as sustenta.

















120x120 cm