
Sementes germinam desafiando toda a lógica
Brígida Campbell
Sente-se confortavelmente, com a coluna reta, mas sem rigidez. Permita que o corpo encontre um ponto de equilíbrio entre a sustentação e descanso. Feche os olhos. Inspire profundamente e expire lentamente pelo nariz. Repita esse movimento algumas vezes, alongando o tempo da respiração até que ela se torne ampla, silenciosa, contínua, como uma onda que vai e volta.
Agora, faça uma viagem em direção ao centro da mente. Observe os pensamentos surgirem e desaparecerem, como uma sequência de telas que se acendem e se apagam. Eles não precisam fazer sentido. São imagens misturadas, fragmentos, sobreposições de cores, formas e sensações. Alguns são nítidos, outros difusos. Alguns carregam memórias, outros são apenas rastros. Ilumine suavemente as regiões mais sombrias, sem esforço, apenas permitindo que sejam vistas. Perceba também as zonas luminosas, os espaços de leveza. Não há nada a corrigir. Não há nada a controlar.
Não se prenda a nenhum pensamento. Eles são todos passageiros. Como nuvens atravessando o céu, como folhas sendo levadas por um rio. Deixe-os passar. Não force o pensamento, não tente interrompê-lo. Apenas observe. Aos poucos, talvez, os intervalos entre um pensamento e outro se ampliem.
Agora, traga a atenção para o corpo. Sinta sua presença aqui. Sinta a densidade, o peso, o contato com o chão ou com a superfície que o sustenta. Perceba a circulação do sangue, não como algo abstrato, mas como um fluxo vivo, úmido, pulsante. Imagine esse movimento percorrendo todas as partes: cabeça, rosto, orelhas, pescoço, ombros… descendo pelos braços, mãos, dedos… atravessando o peito, as costas, a lombar… expandindo-se pela barriga, quadris… escorrendo pelas pernas, coxas, joelhos, panturrilhas… até alcançar os calcanhares, os pés, os dedos dos pés.
Sinta o calor dos músculos, a estrutura silenciosa dos ossos, a elasticidade dos tendões. Sinta os órgãos trabalhando em conjunto, em cooperação constante. O coração pulsa, escute seu ritmo. Os pulmões se expandem e se recolhem. O ar entra, o ar sai. Talvez seja possível perceber pequenos sons internos, vibrações discretas, um murmúrio contínuo da vida acontecendo dentro de você.
Permita que, a cada expiração, algo se solte. Como se o corpo, pouco a pouco, se tornasse mais poroso, mais permeável. Como se seus contornos se suavizassem. Você respira… e, junto com o ar, algo em você se dissolve. Você expira… e se dissolve um pouco mais. Sem pressa. Sem esforço.
Agora, traga à mente a imagem de uma planta com a qual você se sinta conectado. Pode ser uma planta que você conhece, que já tocou, ou uma que apenas imagina. Permita que ela se forme diante de você, com presença e nitidez. Sinta que ela está viva, que ela respira, que ela ocupa um espaço no mundo assim como você.
Aproxime-se dessa planta. Sinta sua presença. Perceba que entre você e ela existe um fluxo invisível, contínuo. Tente, delicadamente, sincronizar sua respiração com a dela. Sem forçar. Apenas sugerindo esse encontro. Lembre-se: você inspira oxigênio e expira o gás carbônico. A planta, por sua vez, inspira o gás carbônico e devolve o oxigênio. Vocês respiram juntos. Vocês se alimentam mutuamente. Criam um circuito comum de ar, um ciclo compartilhado. Permaneça alguns instantes nesse intercâmbio silencioso.
Agora, observe essa planta com mais atenção. Veja suas folhas, suas texturas, suas nervuras, suas tonalidades de verde ou de outras cores. Observe seus caules, galhos, talvez um tronco. Perceba a forma como ela se orienta em direção à luz. Se houver flores, observe suas formas, suas aberturas, seus perfumes imaginados. Há um brilho próprio, uma vitalidade que se manifesta.
Aos poucos, projete sua percepção para dentro dessa planta. Como se sua consciência atravessasse a superfície e passasse a habitar seu interior. Agora, você é a própria planta.
Sinta como é estar nesse corpo. Como é receber a luz do sol? Como essa luz toca suas folhas? Como ela se transforma em energia? Perceba o tempo de outra maneira, mais lento, mais expandido. Talvez insetos pousem sobre você. Pequenos movimentos, leves pressões. Eles caminham, exploram, interagem. Há fungos, há pequenos seres que se aproximam, que tocam, que participam. Nada disso é ameaça. É relação. É convivência. Talvez haja até um certo prazer, uma espécie de cócega suave, um jogo de presenças.
Agora, perceba a circulação da seiva. Um fluxo interno que sobe e desce, levando nutrientes, sustentando a vida. E então, conduza sua atenção para baixo, em direção às raízes.
Sinta suas raízes penetrando o solo. A umidade da terra. A densidade, o frescor, a escuridão fértil. Perceba as diferentes camadas do solo, suas texturas, seus cheiros. Sinta os minerais sendo absorvidos, nitrogênio, fósforo, potássio, dissolvidos na água. Toque, com as pontas de suas raízes, a presença de bactérias, fungos, pequenos insetos. Há uma rede viva ali, um emaranhado de trocas, de comunicações silenciosas. Você não está só.
Permaneça alguns instantes nesse enraizamento.
E então, lentamente, comece a retornar. Traga sua atenção das raízes para o caule, das folhas para o espaço ao redor. Deixe a imagem da planta se dissolver aos poucos. Recolha sua percepção de volta ao seu corpo humano.
Sinta novamente sua respiração. Inspire profundamente… e expire devagar. Sinta o peso do corpo, o contato com o chão. Mova suavemente os dedos das mãos e dos pés. Quando estiver pronto, abra os olhos lentamente, trazendo consigo essa experiência de conexão, de continuidade, de pertencimento.
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Fazemos parte de um todo cósmico profundamente conectado. Cada célula de nossos corpos participa de uma teia viva, complexa e em constante transformação. Somos resultado de milhões de anos de encontros, misturas e atravessamentos. Gerações de mulheres e homens que se entrelaçaram no tempo, produzindo continuidades invisíveis que ainda habitam em nós. Nosso sangue é vivo, pulsante, e carrega consigo a memória de múltiplas vidas, territórios e histórias. Nossos corpos são, assim, a expressão sensível de um planeta vivo: neles se inscreve a passagem humana pela Terra. Somos, ao mesmo tempo, herança e acontecimento, a soma e a continuidade da história da humanidade.
Somos também paisagem. Não apenas habitamos o mundo, somos atravessados por ele, constituídos por seus fluxos, suas matérias, seus ritmos. Há um trânsito contínuo, quase imperceptível, entre a biodiversidade microscópica do solo, onde germinam nossos alimentos, e a microbiologia que sustenta nossos corpos. Essa passagem não se dá por ruptura, mas por continuidade: aquilo que cresce na terra nos atravessa, se transforma, nos compõe.
Nossos estômagos, com seus ácidos, enzimas e bactérias, não são apenas órgãos isolados, mas campos ativos de transformação que ecoam os próprios processos da terra. De certa forma, digerimos como o solo digere. E assim, nossos estômagos modelam os campos, pois orientam escolhas, desejos, modos de cultivo, ao mesmo tempo em que os campos modelam nossos corpos, influenciando nossa saúde, nossa percepção, nossa energia. Há uma reciprocidade profunda, uma coreografia invisível entre dentro e fora.
As plantas, por sua vez, sustentam silenciosamente esse ciclo. Filtram o ar que respiramos, estabilizam atmosferas, criam condições de vida. Mas fazem mais do que isso: ao longo do tempo, elas se tornam parte de nós. Alimentam nosso sangue, participam da formação de nossos tecidos, atravessam nosso olhar e nossa imaginação. Aquilo que vemos, pensamos e sentimos também é, em alguma medida, vegetal. Entre o sangue e a clorofila existe uma afinidade íntima, uma espécie de parentesco bioquímico e simbólico, como se partilhássemos uma mesma linguagem ancestral de transformação da luz em vida.
Nossos corpos, portanto, não são unidades fechadas. São territórios habitados, sistemas abertos, atravessados por uma multidão de formas de vida. Bactérias, vírus, fungos e outros microrganismos não apenas coexistem conosco, eles tornam possível nossa existência. Regulam processos digestivos, fortalecem o sistema imunológico, protegem a pele, participam da produção de substâncias essenciais ao equilíbrio do corpo. Somos, nesse sentido, ecossistemas ambulantes, comunidades em movimento.
Reconhecer essa condição não é apenas um dado científico, mas um gesto ético e sensível. Implica deslocar a ideia de indivíduo autônomo e reconhecer a interdependência como fundamento da vida. Agradecer às nossas companheiras microscópicas é também reconhecer que viver é sempre viver com, com outros, em relação, em coabitação.
Talvez seja necessário, então, reaprender a nos alimentar, não apenas no sentido nutricional, mas como prática de relação com o mundo. Reaprender a habitar os territórios a partir de dentro, a partir dos intestinos, entendendo o corpo como lugar de mediação entre o que ingerimos e o que nos tornamos. Isso implica abandonar lógicas de destruição, extração e exploração, e cultivar modos de existência baseados na metabolização, na troca, na simbiose.
Metabolizar o mundo é mais do que consumir: é transformar com cuidado, é integrar sem esgotar, é participar de ciclos sem interrompê-los. É reconhecer que tudo o que entra em nós continua existindo de outras formas. E que, nesse processo, somos continuamente refeitos, pela terra, pelas plantas, pelos microrganismos, pelas relações que sustentam a vida.
Abaixo da superfície visível, no escuro fértil do solo, operam processos fundamentais: decomposição, germinação, enraizamento, crescimento. A terra não é inerte, ela é um campo ativo de transformações, onde a vida se organiza longe do olhar imediato. Nessa escuridão, que não é ausência, mas potência, as árvores mais antigas sustentam as mais jovens. As árvores distribuem carbono e nutrientes através de redes subterrâneas, nutrindo mudas que crescem à sombra, muitas vezes incapazes de realizar plenamente a fotossíntese. Esse compartilhamento atravessa espécies, criando comunidades resilientes e interdependentes. Uma árvore pode sustentar inúmeras outras ao mesmo tempo, revelando que a vida não se organiza apenas pela competição, mas também, e profundamente, pela cooperação.
Essa dimensão subterrânea convoca a imaginação. O solo é um território onde o visível e o invisível se encontram, onde o conhecido e o desconhecido coexistem. Não se trata apenas de matéria, mas de um mundo povoado por presenças, fluxos e relações que escapam à percepção imediata. Nesse limiar entre o material e o simbólico, a “magia vegetal” emerge não como superstição, mas como reconhecimento da complexidade que excede os limites de uma razão estritamente instrumental.
A magia, nesse sentido, não se opõe à razão, ela a amplia. Quando respiramos com uma planta, quando nos colocamos em relação sensível com outros seres, não abandonamos o conhecimento científico; apenas o atravessamos por outras formas de experiência. Ativamos um saber incorporado, que não se limita ao pensamento lógico, mas envolve intuição, memória, afeto e imaginação. Um saber que é vivido.
Ao longo do tempo, essa dimensão foi reconhecida em diferentes campos. Nas práticas espirituais e religiosas, as plantas atuam como mediadoras, canais de cura, proteção, comunicação, ativadas por rituais que articulam gesto, palavra, ritmo e intenção. Nas tradições populares, manifestam-se em saberes transmitidos pela oralidade: chás, banhos, infusões, benzimentos, práticas que integram corpo, cuidado e memória. No cotidiano do cultivo, do manejo da terra, emerge um conhecimento técnico e relacional, construído na convivência atenta com os ciclos naturais. E mesmo na ciência moderna, voltada à análise e classificação, algo persiste como enigma: a inteligência distribuída das plantas, suas formas de comunicação, sua capacidade de adaptação e cooperação.
Apesar disso, nossa cultura nos ensinou a fragmentar, separar, hierarquizar. Aprendemos a ver o mundo em partes isoladas, como se isso fosse natural. No entanto, na natureza, nada está verdadeiramente separado. O mundo se organiza em camadas interpenetrantes, em uma rede multidimensional de vibrações, de som, de cor, de textura, de emoção, de percepção.
A crise que atravessamos não é apenas ambiental no sentido físico ou químico. Trata-se de uma crise de percepção, de valores, de sensibilidade. Uma crise ética, cultural e espiritual. A degradação dos ecossistemas é também sintoma de um desequilíbrio interno, de uma forma de vida orientada pela extração, pela dominação e pela separação. O colapso ambiental revela, ao mesmo tempo, um colapso nas formas de relação, conosco, com os outros, com o mundo.
Como, então, restabelecer vínculos? Como escutar aquilo que não se organiza em palavras, que não se traduz imediatamente em linguagem humana? Como nos aproximar de formas de vida cuja comunicação não passa pela voz, mas por fluxos químicos, vibrações, ritmos, trocas invisíveis? Imaginar uma conversa com as bactérias de nossos corpos, com os insetos, com as plantas, não é um exercício de fantasia ingênua, mas um deslocamento de perspectiva, uma tentativa de ampliar os modos de escuta e de presença.
Comunicar, talvez, não seja apenas transmitir informação, mas entrar em relação. Sustentar uma atenção sensível ao outro, mesmo quando esse outro não responde nos termos que reconhecemos. Comunicar é ser, estar e sonhar com outros seres, plantas, animais, pedras, fungos, microrganismos, reconhecendo que compartilhamos um mesmo campo de existência, ainda que em frequências distintas. É perceber que toda relação implica transformação mútua.
Comunicar é também semear. Lançar gestos, sinais, presenças que se dispersam no mundo e que podem germinar de formas imprevisíveis. É criar condições para que algo floresça, mesmo sem saber exatamente o quê. Nesse sentido, comunicar exige um certo desapego do controle e da tradução imediata. Talvez seja necessário desaprender a linguagem dominante, linear, utilitária, centrada na eficiência, para que outras formas de expressão possam emergir: sensoriais, intuitivas, afetivas, vibracionais. Formas de comunicação que não se limitam ao dizer, mas que envolvem o corpo inteiro, o ambiente, o tempo.
É nesse campo expandido que a arte se apresenta como um território privilegiado de experimentação. A arte nos permite ensaiar outras formas de relação com o mundo, criando zonas de contato onde o humano deixa de ser o centro exclusivo da experiência. Por meio de metáforas, deslocamentos e invenções, ela reconfigura o sensível e nos convida a perceber o que antes passava despercebido. A arte não apenas representa o mundo, ela o rearticula, abrindo frestas para outras formas de existência.
Ao diluir a ideia de autoria individual, a arte pode acolher práticas coletivas, ancestrais, colaborativas. Pode operar como um campo de escuta ampliada, onde diferentes temporalidades e saberes se encontram. Plantar uma obra é, muitas vezes, lançar uma semente cujo destino não se pode prever. E é justamente nessa abertura, nessa incerteza, que reside sua força: a arte antecipa, especula, intui, não para afirmar verdades fixas, mas para tornar o mundo mais habitável em sua complexidade.
Ao observar os padrões da natureza, seus ritmos, suas repetições, suas variações, podemos criar linguagens sensíveis que dialogam com outros campos do conhecimento, sem se submeter a eles. A arte, nesse sentido, não é apenas aquilo que já está instituído, mas um gesto contínuo de instituir: criar, recriar, transformar e transformar-se. Um processo vivo, em constante mutação, que acompanha o próprio movimento da vida.
A arte ativa os sentidos e mobiliza a percepção, cultivando uma atenção mais fina, mais aberta ao detalhe, ao intervalo, ao que escapa. Produz imagens, sensações e experiências que não se encerram em si mesmas, mas se projetam no mundo como possibilidades de existência. É um fertilizante para a mente, e talvez também para o mundo, pois nutre imaginários, amplia horizontes, sustenta aquilo que ainda não tem forma. Ao nos atravessar, a arte nos torna mais porosos, mais disponíveis, mais capazes de nos deixar afetar. Ela nos permite acolher a beleza do vento, da água, das pedras, da terra, e de reconhecer, em tudo isso, algo de nós mesmos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
COLLEN, Alanna. 10% humano: como os micro-organismos são a chave para a saúde do corpo e da mente. Tradução de Ivo Korytowski. Rio de Janeiro: Sextante, 2016.
COCCIA, Emanuele. A vida das plantas: uma metafísica da mistura. Tradução de Fernando Scheibe. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2018.
COCCIA, Emanuele. Metamorfoses. Tradução de Madeleine Deschamps e Victoria Mouawad. Rio de Janeiro: Dantes Editora, 2021.
GUATTARI, Félix. As três ecologias. Tradução de Maria Cristina F. Bittencourt. 11. ed. Campinas: Papirus, 2012.
KROPOTKIN, Piotr. Ajuda Mútua: Um Fator de Evolução. Editora Imaginário, 2009
PRIMAVESI, Ana. Manejo ecológico do solo: a agricultura em regiões tropicais. São Paulo: Nobel, 1980.
Seeds Germinate by Defying All Logic
Brígida Campbell
Sit comfortably, with your spine upright but without rigidity. Allow your body to find a point of balance between support and rest. Close your eyes. Inhale deeply and exhale slowly through your nose. Repeat this movement several times, gradually lengthening your breath until it becomes expansive, silent, continuous, like a wave moving back and forth.
Now, take a journey toward the center of your mind. Observe your thoughts as they arise and disappear, like a sequence of screens lighting up and going dark. They do not need to make sense. They are mixed images, fragments, overlapping colors, shapes, and sensations. Some are sharp, others diffuse. Some carry memories, while others are merely traces. Gently illuminate the darker regions, without effort, simply allowing them to be seen. Notice the luminous areas as well, the spaces of lightness. There is nothing to correct. There is nothing to control.
Do not hold on to any thought. They are all passing. Like clouds crossing the sky, like leaves carried away by a river. Let them pass. Do not force your thoughts, and do not try to stop them. Simply observe. Gradually, perhaps, the spaces between one thought and another will begin to expand.
Now bring your attention to your body. Feel its presence here. Feel its density, its weight, its contact with the ground or with the surface that supports you. Notice the circulation of your blood, not as something abstract, but as a living, moist, pulsating flow. Imagine this movement traveling through every part of you: your head, face, ears, neck, shoulders… moving down through your arms, hands, fingers… passing through your chest, back, lower back… expanding through your belly and hips… flowing down your legs, thighs, knees, calves… until it reaches your heels, feet, and toes.
Feel the warmth of your muscles, the silent structure of your bones, the elasticity of your tendons. Feel your organs working together, in constant cooperation. Your heart beats; listen to its rhythm. Your lungs expand and contract. Air enters, air leaves. Perhaps you can perceive small internal sounds, subtle vibrations, a continuous murmur of life unfolding within you.
Allow something to loosen with each exhalation. As if your body were gradually becoming more porous, more permeable. As if its contours were softening. You breathe in… and, together with the air, something within you dissolves. You breathe out… and dissolve a little more. Without hurry. Without effort.
Now bring to mind the image of a plant to which you feel connected. It may be a plant you know, one you have touched before, or one you simply imagine. Allow it to take shape before you, with presence and clarity. Feel that it is alive, that it breathes, that it occupies a place in the world just as you do.
Move closer to this plant. Feel its presence. Notice that between you and the plant there is an invisible, continuous flow. Gently try to synchronize your breathing with its own. Without forcing it. Simply allowing the possibility of this encounter. Remember: you inhale oxygen and exhale carbon dioxide. The plant, in turn, takes in carbon dioxide and releases oxygen. You breathe together. You nourish one another. You create a shared circuit of air, a common cycle. Remain for a few moments within this silent exchange.
Now observe the plant more closely. Look at its leaves, their textures, their veins, their shades of green or other colors. Observe its stems, branches, perhaps a trunk. Notice the way it orients itself toward the light. If there are flowers, observe their shapes, their openings, their imagined fragrances. There is a light of its own, a vitality that reveals itself.
Gradually, project your awareness inward, into the plant. As if your consciousness were passing through its surface and beginning to inhabit its interior. Now, you are the plant itself.
Feel what it is like to inhabit this body. What is it like to receive sunlight? How does the light touch your leaves? How is it transformed into energy? Experience time differently, more slowly, more expansively. Perhaps insects land upon you. Small movements, gentle pressures. They walk, explore, interact. There are fungi, there are tiny beings approaching, touching, participating. None of this is a threat. It is relationship. It is coexistence. Perhaps there is even a certain pleasure, a kind of gentle tickling, a play of presences.
Now perceive the circulation of sap. An internal flow moving upward and downward, carrying nutrients and sustaining life. And then guide your attention downward, toward the roots.
Feel your roots penetrating the soil. Feel the moisture of the earth. Its density, its coolness, its fertile darkness. Notice the different layers of the soil, their textures, their smells. Feel the minerals being absorbed—nitrogen, phosphorus, potassium—dissolved in water. With the tips of your roots, touch the presence of bacteria, fungi, and tiny insects. There is a living network there, a tangle of exchanges and silent communications. You are not alone.
Remain for a few moments in this rootedness.
And then, slowly, begin to return. Bring your attention from the roots to the stem, from the leaves to the space around you. Allow the image of the plant to gradually dissolve. Gather your awareness back into your human body.
Feel your breathing again. Inhale deeply… and exhale slowly. Feel the weight of your body, its contact with the ground. Gently move your fingers and toes. When you are ready, slowly open your eyes, carrying with you this experience of connection, continuity, and belonging.
We are part of a deeply interconnected cosmic whole. Every cell in our bodies participates in a living web, complex and constantly transforming. We are the result of millions of years of encounters, mixtures, and crossings. Generations of women and men have intertwined through time, producing invisible continuities that still inhabit us. Our blood is alive, pulsating, and carries within it the memory of multiple lives, territories, and histories. Our bodies are thus the sensitive expression of a living planet: the passage of humanity through the Earth is inscribed within them. We are, at once, inheritance and event, the sum and continuation of human history.
We are also landscape. We do not merely inhabit the world; we are traversed by it, constituted by its flows, its materials, its rhythms. There is a continuous, almost imperceptible transit between the microscopic biodiversity of the soil, where our food germinates, and the microbiology that sustains our bodies. This passage does not occur through rupture, but through continuity: what grows in the earth passes through us, is transformed, and becomes part of us.
Our stomachs, with their acids, enzymes, and bacteria, are not merely isolated organs, but active fields of transformation that echo the processes of the earth itself. In a certain sense, we digest as the soil digests. And so our stomachs shape the fields, guiding choices, desires, and ways of cultivating the land, just as the fields shape our bodies, influencing our health, our perception, and our energy. There is a profound reciprocity here, an invisible choreography between inside and outside.
Plants, in turn, silently sustain this cycle. They filter the air we breathe, stabilize atmospheres, and create the conditions for life. But they do more than this: over time, they become part of us. They nourish our blood, participate in the formation of our tissues, and pass through our gaze and our imagination. What we see, think, and feel is also, to some extent, vegetal. Between blood and chlorophyll there is an intimate affinity, a kind of biochemical and symbolic kinship, as though we shared an ancestral language of transforming light into life.
Our bodies, therefore, are not closed units. They are inhabited territories, open systems traversed by a multitude of forms of life. Bacteria, viruses, fungi, and other microorganisms do not merely coexist with us; they make our existence possible. They regulate digestive processes, strengthen the immune system, protect the skin, and participate in the production of substances essential to the body’s balance. In this sense, we are walking ecosystems, communities in motion.
Recognizing this condition is not merely a scientific fact, but an ethical and sensory gesture. It means moving away from the idea of the autonomous individual and recognizing interdependence as a foundation of life. To give thanks to our microscopic companions is also to recognize that living always means living with—with others, in relation, in coexistence.
Perhaps, then, we need to relearn how to nourish ourselves, not only in the nutritional sense, but as a practice of relating to the world. To relearn how to inhabit territories from within, beginning with the intestines, understanding the body as a place of mediation between what we ingest and what we become. This means abandoning logics of destruction, extraction, and exploitation, and cultivating modes of existence based on metabolization, exchange, and symbiosis.
To metabolize the world is more than to consume it: it is to transform with care, to integrate without exhausting, to participate in cycles without interrupting them. It is to recognize that everything that enters us continues to exist in other forms. And that, through this process, we are continually remade by the earth, by plants, by microorganisms, and by the relationships that sustain life.
Beneath the visible surface, in the fertile darkness of the soil, fundamental processes are at work: decomposition, germination, rooting, growth. The earth is not inert; it is an active field of transformation, where life organizes itself beyond immediate sight. In this darkness, which is not absence but potential, the oldest trees sustain the younger ones. Trees distribute carbon and nutrients through underground networks, nourishing seedlings growing in the shade, often unable to carry out photosynthesis fully. This sharing crosses species boundaries, creating resilient and interdependent communities. One tree can sustain countless others at the same time, revealing that life is organized not only through competition, but also, and profoundly, through cooperation.
This underground dimension calls upon the imagination. The soil is a territory where the visible and invisible meet, where the known and unknown coexist. It is not merely matter, but a world populated by presences, flows, and relationships that escape immediate perception. At this threshold between the material and the symbolic, “plant magic” emerges not as superstition, but as an acknowledgment of a complexity that exceeds the limits of strictly instrumental reason.
Magic, in this sense, does not oppose reason; it expands it. When we breathe with a plant, when we place ourselves in a sensitive relationship with other beings, we do not abandon scientific knowledge; we simply move through it using other forms of experience. We activate an embodied knowledge that is not limited to logical thought, but involves intuition, memory, affect, and imagination. A knowledge that is lived.
Throughout history, this dimension has been recognized in different fields. In spiritual and religious practices, plants act as mediators, channels of healing, protection, and communication, activated through rituals that bring together gesture, word, rhythm, and intention. In popular traditions, they appear in forms of knowledge transmitted orally: teas, baths, infusions, healing blessings, practices that integrate body, care, and memory. In everyday cultivation and land management, a technical and relational knowledge emerges, built through attentive coexistence with natural cycles. And even in modern science, devoted to analysis and classification, something remains as an enigma: the distributed intelligence of plants, their forms of communication, their capacity for adaptation and cooperation.
Despite this, our culture has taught us to fragment, separate, and hierarchize. We have learned to see the world as isolated parts, as though this were natural. Yet in nature, nothing is truly separate. The world is organized through interpenetrating layers, within a multidimensional network of vibrations, sound, color, texture, emotion, and perception.
The crisis we are experiencing is not merely environmental in a physical or chemical sense. It is a crisis of perception, values, and sensitivity. An ethical, cultural, and spiritual crisis. The degradation of ecosystems is also a symptom of an internal imbalance, of a way of life oriented toward extraction, domination, and separation. Environmental collapse simultaneously reveals a collapse in our forms of relationship—with ourselves, with others, and with the world.
How, then, can we restore these bonds? How can we listen to that which does not organize itself into words, which cannot immediately be translated into human language? How can we approach forms of life whose communication does not occur through voice, but through chemical flows, vibrations, rhythms, and invisible exchanges? Imagining a conversation with the bacteria in our bodies, with insects, with plants, is not an exercise in naïve fantasy, but a shift in perspective, an attempt to expand our modes of listening and presence.
Perhaps to communicate is not simply to transmit information, but to enter into relationship. To sustain a sensitive attention toward another, even when that other does not respond in terms we recognize. To communicate is to be, exist, and dream with other beings—plants, animals, stones, fungi, microorganisms—recognizing that we share the same field of existence, even if we inhabit different frequencies. It is to perceive that every relationship entails mutual transformation.
To communicate is also to sow. To release gestures, signs, and presences that disperse into the world and may germinate in unpredictable ways. It is to create the conditions for something to bloom, even without knowing exactly what it will be. In this sense, communication requires a certain letting go of control and immediate translation. Perhaps we need to unlearn the dominant, linear, utilitarian language centered on efficiency, so that other forms of expression can emerge: sensory, intuitive, affective, vibrational. Forms of communication that are not limited to speaking, but involve the entire body, the environment, and time.
It is within this expanded field that art emerges as a privileged territory for experimentation. Art allows us to rehearse other forms of relationship with the world, creating zones of contact in which the human ceases to be the exclusive center of experience. Through metaphors, displacements, and inventions, it reconfigures the sensible and invites us to perceive what previously went unnoticed. Art does not merely represent the world; it rearticulates it, opening cracks through which other forms of existence can emerge.
By dissolving the idea of individual authorship, art can embrace collective, ancestral, and collaborative practices. It can operate as a field of expanded listening, where different temporalities and forms of knowledge meet. To plant a work of art is often to cast a seed whose destiny cannot be predicted. And it is precisely in this openness, this uncertainty, that its strength resides: art anticipates, speculates, and intuits, not in order to assert fixed truths, but to make the world more inhabitable in all its complexity.
By observing the patterns of nature—its rhythms, repetitions, and variations—we can create sensitive languages that enter into dialogue with other fields of knowledge without becoming subordinate to them. Art, in this sense, is not merely what has already been established, but a continuous gesture of instituting: creating, recreating, transforming, and being transformed. A living process, in constant mutation, that follows the movement of life itself.
Art activates the senses and mobilizes perception, cultivating a finer attention, more open to detail, to intervals, to what escapes notice. It produces images, sensations, and experiences that do not close in upon themselves, but project themselves into the world as possibilities for existence. It is a fertilizer for the mind, and perhaps also for the world, because it nourishes imaginaries, expands horizons, and sustains what does not yet have a form. By passing through us, art makes us more porous, more receptive, more capable of allowing ourselves to be affected. It enables us to welcome the beauty of wind, water, stones, and earth, and to recognize, in all of this, something of ourselves.

Estamos sonhando com uma transformação radical
Brígida Campbell
No Ashtanga Yoga, pratica-se uma sequência fixa de posturas que unem respiração, foco, força e resistência. Essa sequência longa é aprendida gradualmente, com o corpo assimilando cada movimento até que ele se torne um saber encarnado. O conhecimento não é imposto de fora, mas construído dentro da experiência do próprio corpo. Dominar toda a série não é simples. Memorizar a ordem exata e executar cada postura com precisão já é por si só um desafio transformador, parte essencial do processo. Diferentemente de outras modalidades de yoga, nas aulas não existe uma orientação única para todos. Cada praticante segue no seu próprio ritmo, respeitando seus limites e conhecimentos. E é nesse espaço que acontece algo especial: enquanto você se concentra na sua prática individual, os colegas ao redor se tornam guias naturais.
Quando a memória falha e o próximo movimento escapa, ou quando se percebe que há espaço para refinamento, basta observar quem está ao lado. Não há competição, apenas um fluxo contínuo de aprendizado mútuo. Alguns dominam mais posturas, outros trazem maior consciência, mas todos ensinam simplesmente através do exemplo. Dessa forma, sem palavras, a turma vai encontrando seu equilíbrio natural, unida pelo silêncio e pela prática compartilhada. Essa experiência revela um dos princípios da inteligência coletiva: saberes que não pertencem a uma pessoa apenas, mas que circulam, se entrelaçam e crescem no espaço entre os corpos e as presenças.
Também nas aulas de arte, assim como em outras práticas coletivas, o aprendizado se dá em múltiplas dimensões. Ele se constitui como uma rede viva de trocas onde cada gesto, cada experimentação e até mesmo em cada "erro" que se transformam em possibilidades compartilhadas. A presença do grupo sustenta a prática individual já que no ateliê coletivo desenvolve-se uma percepção aguçada do outro, seja através do olhar que capta uma solução criativa inesperada, da escuta atenta que acolhe diferentes perspectivas, ou da colaboração silenciosa que acontece quando materiais e ideias circulam livremente. Nesse espaço, a criação deixa de ser um ato solitário para se tornar um campo de ressonâncias, onde as descobertas de um ecoam e se transformam nas experiências de todos. O que emerge não é apenas um conjunto de obras individuais, mas uma inteligência coletiva que se manifesta na maneira como o grupo passa a ver, pensar e criar juntos, uma competência compartilhada que nenhum membro teria desenvolvido sozinho. Essa dinâmica revela o potencial transformador das práticas artísticas quando entendidas não como produção de objetos, mas como cultivo de relações e modos de perceber o mundo.
Essas experiências mobilizam integralmente os envolvidos. Acionam o corpo, estimulam a mente, despertam a criatividade e exigem colaboração. A confluência de diferentes perspectivas, ideias e propostas cria uma poderosa rede de conexões e significados. Quando trabalhamos juntos na criação artística, o resultado final transcende a simples soma das contribuições individuais. O que emerge desse processo coletivo é algo novo e singular, fruto das interações, diálogos, tensões e afetos que se estabelecem no grupo. Esse fenômeno criativo se manifesta em diversos contextos: desde grupos de criação e oficinas até residências artísticas, movimentos sociais e ocupações culturais. Em todos esses espaços, a arte se revela como uma experiência profundamente relacional e transformadora, que desafia os conceitos tradicionais de que o artista é um gênio individual, separado do mundo e dos outros.
Em muitas culturas originárias e em práticas artísticas comunitárias, a criatividade jamais foi concebida como propriedade individual, mas como manifestação de um princípio cósmico ou espiritual que flui através dos seres humanos. Esta compreensão revela a criação como ato essencialmente relacional, um constante entrelaçar de vozes, visões e vivências que transcendem qualquer noção reducionista de autoria. Como os rios que nascem do encontro de mil fontes, toda obra emerge de uma complexa rede de influências: memórias ancestrais que ecoam em nós, diálogos fortuitos que nos atravessam, sonhos e visões que irrompem do inconsciente profundo. Nos coletivos de arte urbana, nas ações performáticas de rua, nas residências que cruzam artistas e comunidades, na arte relacional que envolve o público como coautor, em todas essas experiências a obra deixa de ser um produto fechado e passa a ser processo, campo de relação, ativadora de encontros. O artista não é mais o gênio isolado, mas o facilitador de um espaço onde muitas vozes podem ressoar.
Esse mesmo princípio de interconexão criativa se manifesta com impressionante sabedoria nos sistemas vivos. As florestas comunicam-se através de redes micorrízicas subterrâneas, os cardumes movem-se como um único organismo, as colmeias regulam-se por inteligência distribuída, todos demonstrando que a verdadeira inovação emerge da colaboração, não do isolamento. Os filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari chamaram essa forma de organização de rizoma: uma rede sem centro, sem hierarquia fixa, onde qualquer ponto pode se conectar a qualquer outro, gerando multiplicidades imprevisíveis. É um modelo para pensar a criação artística e o saber humano em geral: não como edifício de blocos empilhados por um arquiteto solitário, mas como trama viva de relações que se expandem, se bifurcam, se transformam. Esses sistemas vivos podem nos inspirar para práticas artísticas mais conectadas e ecológicas, que nos ajudem a enfrentar os imensos desafios ambientais e sociais do nosso tempo.
Assim como os bosques se sustentam em redes de fungos radiculares, onde fungos e raízes trocam nutrientes em silêncio, a criação artística poderia florescer como um fenômeno radicalmente interdependente. Imagine ateliês que funcionassem como clareiras abertas em uma floresta densa: espaços de convivência onde o processo criativo de um artista nutre e transforma o de outro. Nesse ecossistema, um gesto iniciado por alguém é continuado, expandido ou ressignificado por outra pessoa, como nas práticas do coletivo japonês Gutai, nas obras de Lygia Clark, nos Parangolés de Hélio Oiticica, na arte postal de Paulo Bruscky, nas instruções da Yoko Ono. Obras nas quais o ato criativo era mais importante do que o objeto finalizado, e as obras não existem sem a participação dos outros.
Essa arte que se faz nas trocas, onde gestos se completam em rede, encontra seu paralelo orgânico nos próprios ciclos da natureza. Pois os ecossistemas também nos ensinam que criação e manutenção são faces da mesma moeda. Nas florestas, cada organismo contribui para o equilíbrio do todo. As árvores não apenas crescem, mas modificam ativamente o ambiente que as sustenta. Essa lógica nos revela uma potente metáfora para a prática artística: a obra como parte de um ciclo contínuo de transformação e diálogo com o mundo.
Quando a arte incorpora esse entendimento, ela se torna um exercício radical de atenção ao presente e compromisso com o futuro. Como ato político e poético de reconfiguração do real. Tal qual os jardins flutuantes dos astecas, que transformavam lagos em sistemas produtivos, a criação artística pode ser pensada como tecnologia social, capaz de gerar novas formas de habitar e interpretar o mundo.
Nessa perspectiva, o tempo da arte se desdobra em múltiplas temporalidades. Há a urgência da intervenção necessária, como o florescimento rápido após uma perturbação ambiental. Há a paciência dos processos cumulativos, como a formação do solo que sustenta a vida. A obra deixa de ser ponto final para se tornar estação em um percurso coletivo, um gesto que se entrega ao futuro como as árvores lançam suas sementes, sem controle sobre onde e como germinarão.
Nessa perspectiva, o valor estético não estaria na originalidade individual, mas na capacidade da obra de fertilizar o terreno comum. Uma escultura que vira abrigo para insetos, uma performance que ativa redes de cuidado mútuo, um poema escrito coletivamente como os ninhos tecidos a muitas aves. Aqui, beleza e utilidade se fundem, seguindo o exemplo dos corais, que são ao mesmo tempo arte da natureza e alicerce para toda uma comunidade de vida.
A interdependência seria como beleza, como uma poética das redes vivas. Já que a floresta não conhece indivíduos isolados, conhece relações. Da mesma forma, a arte que aprende com os ecossistemas colaborativos celebra explicitamente suas teias de existência compartilhada. Aqui, cada obra exibiria suas raízes como um mapa aberto: listando não apenas influências artísticas formais, mas os encontros concretos que a tornaram possível. A conversa com um agricultor que sugeriu um material, o texto lido por acaso na biblioteca pública, os saberes ancestrais reinterpretados em diálogo com uma comunidade local. Artistas assumiriam funções ecológicas específicas: polinizadores, que conectam ideias distantes, decompositores, que transformam resíduos culturais em novos significados, ou fixadores, que ancoram memórias coletivas. Com isso muda também o papel da crítica de arte. Não mais julgar obras isoladas segundo critérios fixos, mas avaliar ecologias criativas: como este projeto fortalece (ou não) as redes de relação de que participa? Como ele cuida (ou não) dos vínculos com seu contexto, sua comunidade, sua memória coletiva? O museu, nesse modelo, vira espaço de relações visíveis: cada peça exibindo suas raízes, suas conexões, como as árvores de uma floresta biodiversa. O museu se tornaria uma reserva de relações, onde cada peça carregaria suas conexões visíveis, como as árvores da mata atlântica que só frutificam quando certos pássaros e insetos estão presentes. Nessa perspectiva, a beleza emerge precisamente da vulnerabilidade confessada, da obra que reconhece, e celebra, que não existe por si, mas porque existe um mundo que a alimenta.
Por isso, a arte que se inspira na colaboração e na ecologia não se interessa apenas pelo tema ambiental, mas pelo modo ecológico de existir: interdependente, relacional, atento às redes da vida. Um projeto artístico pode ser como uma horta comunitária: espaço de cuidado partilhado, de crescimento lento, de colheitas futuras. Pode ser como um fluxo subterrâneo de nutrientes simbólicos, invisíveis mas vitais.
Diante destas ideias, estamos sonhando com uma transformação radical em nossos modelos criativos: substituir o culto ao gênio isolado por ecossistemas de pensamento coletivo. Esta abordagem dialógica da arte, inspirada nas pedagogias críticas de Paulo Freire, poderia libertar nosso potencial criativo das amarras do individualismo contemporâneo, permitindo que as ideias circulassem por todo o corpo social, como um campo múltiplo de saberes. O saber é sempre partilhado, produzido no encontro com o outro e com o mundo. A educação “bancária”, na qual o professor deposita conhecimento no aluno, não tem espaço para o inesperado, para o erro criativo, para a construção comum do sentido. Em contrapartida, uma pedagogia do diálogo assume o inacabamento humano como potência: aprendemos porque somos incompletos, porque precisamos uns dos outros. O mesmo se aplica à arte e à criação: quanto mais abrimos o processo à escuta, à colaboração, à interferência, mais rica e imprevisível se tornam as obras e os processos artísticos.
A inteligência coletiva é também um convite ético e político. No contexto da crise ecológica global, pensar em rede não é apenas uma metáfora criativa é uma necessidade vital. Precisamos reinventar modos de habitar o planeta que reconheçam a interdependência radical de todas as formas de vida. A arte pode ser um campo privilegiado para essa reinvenção: laboratório sensível de outras formas de viver, imaginar, cuidar e criar o mundo.
Assim, talvez seja possível sonhar com uma nova ecologia das práticas culturais. Menos centrada em mercado, autorias, produtos acabados e marcas individuais. Mais aberta a processos compartilhados, a redes de solidariedade, a gestos de cuidado mútuo. A inteligência coletiva não é só uma técnica ou um método. É uma visão de mundo. É a percepção de que somos, como dizia Edgar Morin, seres de relação, tecidos por fios que nos ligam aos outros, à terra, à história. Esse sonho já está em germinação em muitas experiências: nas oficinas coletivas de artes gráficas, onde o papel circula entre muitas mãos e os múltiplos tomam a cidade; nas residências artísticas que propõem trocas com saberes locais; na arte situada, nos projetos comunitários que envolvem moradores, escolas, feiras, hortas, bibliotecas, nos coletivos que recusam a assinatura individual para afirmar uma autoria plural.
Por fim, é preciso reconhecer que esta visão vai além de uma utopia poética: ela se apresenta como resposta urgente aos desafios do nosso tempo. A crise ecológica, social e espiritual que enfrentamos exige novos paradigmas criativos. O individualismo extremo que marca as práticas artísticas contemporâneas já mostrou seus limites e contradições. Em seu lugar, precisamos cultivar formas de criação que restaurem o tecido comunitário, que fortaleçam os laços entre pessoas e natureza, entre tradição e inovação, entre o visível e invisível e suas múltiplas camadas de significado.Desta forma, a arte poderá cumprir seu papel mais essencial. Como espelho da condição humana, ela nos confronta com verdades que transcendem a linguagem verbal. Como produtora de presença, ela nos ancora no corpo e no momento presente, contrapondo-se à virtualização excessiva da vida contemporânea. Como ferramenta de reencantamento, ela reativa conexões perdidas com o mundo natural e mágico. Como prática descolonizadora, ela resgata histórias silenciadas e questiona narrativas hegemônicas. E como portal para o sagrado, ela nos reconecta com dimensões transcendentes da existência. Num mundo que nos reduz a meros consumidores e dados algorítmicos, a arte surge como antídoto vital. Ela nos desperta da anestesia do cotidiano, nos convida a tocar o inefável e a dialogar com as forças profundas que habitam nossa psique coletiva. Talvez o grande gesto estético de nosso tempo seja justamente este: abrir espaços onde o comum possa florescer, cultivar redes vivas de pensamento e criação, semear inteligências coletivas que nos ajudem a habitar este planeta ferido com mais sabedoria e beleza. Não como fuga da realidade, mas como forma mais profunda de engajamento com ela.
Originalmente publicado no livro "Arte, Ecossistemas e Saberes Integrados" - organização Lola Fabres e Luciano Nascimento
We Are Dreaming of a Radical Transformation
Brígida Campbell
In Ashtanga Yoga, practitioners follow a fixed sequence of postures that brings together breath, focus, strength, and endurance. This long sequence is learned gradually, with the body assimilating each movement until it becomes embodied knowledge. Knowledge is not imposed from the outside, but built through the experience of the body itself. Mastering the entire series is no simple task. Memorizing the exact order and performing each posture with precision is already a transformative challenge in itself, an essential part of the process. Unlike other forms of yoga, these classes do not follow a single instruction for everyone. Each practitioner moves at their own pace, respecting their own limits and knowledge. And it is within this space that something special happens: while you concentrate on your individual practice, those around you become natural guides.
When memory fails and the next movement slips away, or when you realize that there is room for refinement, all you need to do is observe the person beside you. There is no competition, only a continuous flow of mutual learning. Some practitioners have mastered more postures; others bring a greater degree of awareness, but everyone teaches simply through example. In this way, without words, the group gradually finds its natural balance, united by silence and shared practice. This experience reveals one of the principles of collective intelligence: forms of knowledge that do not belong to a single person, but circulate, intertwine, and grow in the space between bodies and presences.
In art classes, as in other collective practices, learning also takes place across multiple dimensions. It develops as a living network of exchanges in which every gesture, every experiment, and even every “mistake” becomes a shared possibility. The presence of the group sustains individual practice, since the collective studio cultivates a heightened awareness of others—through the gaze that catches an unexpected creative solution, the attentive listening that welcomes different perspectives, or the silent collaboration that occurs when materials and ideas circulate freely. In this space, creation ceases to be a solitary act and becomes a field of resonances, where one person’s discoveries echo through and are transformed by the experiences of everyone else. What emerges is not merely a collection of individual works, but a collective intelligence manifested in the way the group begins to see, think, and create together: a shared capacity that no individual member could have developed alone. This dynamic reveals the transformative potential of artistic practices when understood not as the production of objects, but as the cultivation of relationships and ways of perceiving the world.
These experiences engage participants as whole beings. They activate the body, stimulate the mind, awaken creativity, and require collaboration. The convergence of different perspectives, ideas, and proposals creates a powerful network of connections and meanings. When we work together in artistic creation, the final result transcends the simple sum of individual contributions. What emerges from this collective process is something new and singular, born from the interactions, dialogues, tensions, and affects that arise within the group. This creative phenomenon manifests itself in many contexts: from creative groups and workshops to artist residencies, social movements, and cultural occupations. In all these spaces, art reveals itself as a deeply relational and transformative experience, challenging traditional notions of the artist as an individual genius, separate from the world and from others.
In many Indigenous cultures and community-based artistic practices, creativity has never been conceived as individual property, but rather as the manifestation of a cosmic or spiritual principle that flows through human beings. This understanding reveals creation as an essentially relational act, a constant weaving together of voices, visions, and experiences that transcends any reductive notion of authorship. Like rivers born from the meeting of a thousand springs, every work emerges from a complex network of influences: ancestral memories that echo within us, chance encounters and conversations that pass through us, dreams and visions arising from the depths of the unconscious. In urban art collectives, street-based performance actions, residencies that bring artists and communities together, and relational art that involves the public as co-authors, the work ceases to be a closed product and becomes a process, a field of relations, an activator of encounters. The artist is no longer an isolated genius, but a facilitator of a space in which many voices can resonate.
This same principle of creative interconnectedness manifests itself with remarkable wisdom in living systems. Forests communicate through underground mycorrhizal networks, schools of fish move as if they were a single organism, and beehives regulate themselves through distributed intelligence—all demonstrating that genuine innovation emerges from collaboration rather than isolation. Philosophers Gilles Deleuze and Félix Guattari called this form of organization a rhizome: a network without a center or fixed hierarchy, in which any point can connect to any other, generating unpredictable multiplicities. It offers a model for thinking about artistic creation and human knowledge in general: not as a building of blocks stacked by a solitary architect, but as a living web of relationships that expands, branches out, and transforms. These living systems can inspire more connected and ecological artistic practices, helping us confront the immense environmental and social challenges of our time.
Just as forests are sustained by networks of fungi and roots, in which fungi and roots silently exchange nutrients, artistic creation could flourish as a radically interdependent phenomenon. Imagine studios functioning like clearings in a dense forest: spaces of coexistence in which one artist’s creative process nourishes and transforms another’s. In this ecosystem, a gesture initiated by one person is continued, expanded, or re-signified by someone else, as in the practices of the Japanese collective Gutai, the works of Lygia Clark, Hélio Oiticica’s Parangolés, Paulo Bruscky’s mail art, and Yoko Ono’s instructions. These are works in which the creative act was more important than the finished object, and in which the works could not exist without the participation of others.
This art made through exchange, where gestures are completed through networks, finds its organic counterpart in nature’s own cycles. Ecosystems teach us that creation and maintenance are two sides of the same coin. In forests, every organism contributes to the balance of the whole. Trees do not merely grow; they actively modify the environment that sustains them. This logic offers a powerful metaphor for artistic practice: the work as part of an ongoing cycle of transformation and dialogue with the world.
When art incorporates this understanding, it becomes a radical exercise in attention to the present and commitment to the future. A political and poetic act of reconfiguring reality. Like the floating gardens of the Aztecs, which transformed lakes into productive systems, artistic creation can be understood as a social technology capable of generating new ways of inhabiting and interpreting the world.
From this perspective, the time of art unfolds across multiple temporalities. There is the urgency of necessary intervention, like the rapid flowering that follows an environmental disturbance. And there is the patience of cumulative processes, like the formation of soil that sustains life. The work ceases to be a final point and becomes a stage along a collective journey, a gesture offered to the future, like trees releasing their seeds without control over where or how they will germinate.
From this perspective, aesthetic value would not lie in individual originality, but in the work’s capacity to fertilize the common ground. A sculpture that becomes shelter for insects, a performance that activates networks of mutual care, a poem written collectively like nests woven by many birds. Here, beauty and usefulness merge, following the example of corals, which are simultaneously an art of nature and the foundation of an entire community of life.
Interdependence could itself become a form of beauty, a poetics of living networks. For the forest knows no isolated individuals; it knows relationships. In the same way, art that learns from collaborative ecosystems explicitly celebrates its webs of shared existence. Here, each work would display its roots as an open map, listing not only formal artistic influences but also the concrete encounters that made it possible. The conversation with a farmer who suggested a material, the text encountered by chance in a public library, ancestral knowledge reinterpreted through dialogue with a local community. Artists would assume specific ecological functions: pollinators, connecting distant ideas; decomposers, transforming cultural residues into new meanings; or fixers, anchoring collective memories.
This would also transform the role of art criticism. Rather than judging isolated works according to fixed criteria, it would evaluate creative ecologies: how does this project strengthen—or fail to strengthen—the networks of relationships in which it participates? How does it care—or fail to care—for the bonds connecting it to its context, its community, and its collective memory? The museum, in this model, becomes a space in which relationships are made visible: each piece displaying its roots and connections, like the trees of a biodiverse forest. The museum would become a reserve of relationships, where every piece carries its connections visibly, like the trees of the Atlantic Forest that only bear fruit when certain birds and insects are present. From this perspective, beauty emerges precisely from acknowledged vulnerability: from a work that recognizes, and celebrates, the fact that it does not exist by itself, but because there is a world that nourishes it.
For this reason, art inspired by collaboration and ecology is not interested merely in environmental themes, but in an ecological mode of existence: interdependent, relational, attentive to the networks of life. An artistic project can be like a community garden: a space of shared care, slow growth, and future harvests. It can be like an underground flow of symbolic nutrients, invisible yet vital.
In light of these ideas, we are dreaming of a radical transformation of our creative models: replacing the cult of the isolated genius with ecosystems of collective thought. This dialogical approach to art, inspired by the critical pedagogies of Paulo Freire, could liberate our creative potential from the constraints of contemporary individualism, allowing ideas to circulate throughout the social body as a multiplicity of forms of knowledge. Knowledge is always shared, produced through encounters with others and with the world. “Banking” education, in which the teacher deposits knowledge into the student, leaves no room for the unexpected, for creative error, or for the shared construction of meaning. By contrast, a pedagogy of dialogue embraces human incompleteness as a source of potential: we learn because we are incomplete, because we need one another. The same applies to art and creation: the more we open the process to listening, collaboration, and interference, the richer and more unpredictable artistic works and processes become.
Collective intelligence is also an ethical and political invitation. In the context of the global ecological crisis, thinking in networks is not merely a creative metaphor; it is a vital necessity. We need to reinvent ways of inhabiting the planet that recognize the radical interdependence of all forms of life. Art can be a privileged field for this reinvention: a sensitive laboratory for other ways of living, imagining, caring for, and creating the world.
Thus, perhaps it is possible to dream of a new ecology of cultural practices. Less centered on markets, authorship, finished products, and individual brands. More open to shared processes, networks of solidarity, and gestures of mutual care. Collective intelligence is not merely a technique or a method. It is a worldview. It is the perception that we are, as Edgar Morin has argued, relational beings, woven from threads that connect us to others, to the earth, and to history. This dream is already germinating in many experiences: in collective graphic arts workshops, where paper circulates through many hands and prints take over the city; in artist residencies that foster exchanges with local forms of knowledge; in situated art; in community projects involving residents, schools, markets, gardens, and libraries; and in collectives that reject individual signatures in favor of plural authorship.
Finally, it is necessary to recognize that this vision goes beyond a poetic utopia: it presents itself as an urgent response to the challenges of our time. The ecological, social, and spiritual crises we face demand new creative paradigms. The extreme individualism that characterizes contemporary artistic practices has already revealed its limits and contradictions. In its place, we need to cultivate forms of creation that restore the communal fabric, strengthening the bonds between people and nature, between tradition and innovation, between the visible and the invisible and their multiple layers of meaning.
In this way, art may fulfill its most essential role. As a mirror of the human condition, it confronts us with truths that transcend verbal language. As a producer of presence, it anchors us in the body and in the present moment, countering the excessive virtualization of contemporary life. As a tool for re-enchantment, it reactivates lost connections with the natural and magical world. As a decolonizing practice, it recovers silenced histories and questions hegemonic narratives. And as a portal to the sacred, it reconnects us with transcendent dimensions of existence. In a world that reduces us to mere consumers and algorithmic data, art emerges as a vital antidote. It awakens us from the anesthesia of everyday life, invites us to touch the ineffable, and to engage with the deep forces that inhabit our collective psyche.
Perhaps the great aesthetic gesture of our time is precisely this: to open spaces where the common can flourish, to cultivate living networks of thought and creation, and to sow forms of collective intelligence that can help us inhabit this wounded planet with greater wisdom and beauty. Not as an escape from reality, but as a deeper way of engaging with it.
Brígida Campbell e Bruno Vilela

Baixe o livro aqui.
"Arte e Política na América Latina", é uma série de videoaulas organizada pelo EXA - Espaço
Experimental de Arte e coordenado por Brígida Campbell e Bruno Vilela. Patrocinado pela Lei
Municipal de Incentivo a Cultura de Belo Horizonte, o projeto traz uma série de vídeos e um
livro que pretende criar um espaço para a discussão do papel da arte na América Latina,
levando em conta o caráter híbrido, multicultural e político destas produções. Para isso
pretendemos abarcar a natureza múltipla das maneiras de se fazer, ver e pensar a arte e a
cultura em nosso território, através de diferentes olhares e suas relações com as dinâmicas de
resistência e poder.
As aulas abordam as diferentes facetas da identidade latino-americana, as influências
indígenas, africanas e europeias na nossa cultura, e na nossa arte, para também apontar
caminhos para uma prática contra-colonial no campo da arte e da cultura e, em consequência,
na política. O curso é composto por artistas, pesquisadores, filósofos, cientistas políticos e
historiadores que trazem um debate crítico, para discutir nossos desafios e sonhos para o
futuro.
O conteúdo pode ser acessado gratuitamente pelo site:
https://www.exa.art.br/portfolio/arte-e-politica-na-america-latina/.

ART FOR A SENSITIVE CITY
ARTE PARA UMA CIDADE SENSÍVEL
For read, download and sharing
Para ler, baixar e compartilhar
As cidades são, por natureza, lugares que estão em constante movimento. No Brasil temos acompanhado, especialmente nos últimos anos, transformações de várias ordens: gentrificação, especulação imobiliária, grandes investimentos, falta respeito ao patrimônio histórico e simbólico. Ações que muitas vezes distorcem o caráter público do espaço urbano, transformando-o em mero local de exploração financeira e impedindo a construção de locais de encontro, convivência coletiva e pública. Paralelo a isso, podemos perceber também, uma retomada dos espaços públicos como lugar de convívio, de política, de realização pública e coletiva de projetos. Essa retomada em grande medida é também uma resposta aos processos políticos envolvendo a esfera pública no Brasil e no mundo.
Neste contexto, uma série de projetos artísticos vem sendo realizados no espaço público/urbano, sob os mais diversos nomes, como intervenção urbana, arte participativa, colaborativa, relacional, contextual, etc. Estes trabalhos existem dentro de uma perspectiva que envolve um ideal de dissolução da arte nas esferas públicas e o redesenho político das práticas artísticas. Fazem a arte circular por outras espaços, senão os espaços institucionais tradicionalmente dedicados a ela, criando assim o surgimento de uma prática cultural, onde os processos de trabalho são visivelmente contaminados por outros campos do conhecimento – tais como a antropologia, sociologia, história, arquitetura e o urbanismo.
São obras que ativam o potencial transformador da arte, na medida em que estas práticas e estratégias buscam explorar a cidade como campo de atuação em contato direto com contextos específicos. Sugerem, assim, através de um processo de ressignificação dos espaços, a presença de outros fluxos contidos no interior do ambiente urbano. São ações que procuram atuar em uma linha limite entre o estar e o não estar na condição de arte; e são realizadas sem que as pessoas saibam que o que ali se apresenta deriva de uma prática artística.
O objetivo deste livro é refletir sobre como estes trabalhos se relacionam com as cidades e seus imaginários urbanos para pensar os desdobramentos destas obras no campo simbólico, nos quais eles estão inseridos. A pesquisa busca, colocar em contato, percepções a cerca do espaço urbano vindas de diversas áreas do conhecimento; da geografia, da história, da comunicação etc, para alimentar de referências o processo da pesquisa e ampliar a compreensão do papel da arte no imaginário da cidade e na formação da sensibilidade urbana.
O livro faz parte da pesquisa de Doutorado em andamendo, que a autora está cursando na Escola de Comunicações e Artes da USP e teve o patrocínio da Funarte – Ministério da Cultura, através do prêmio “Bolsa de Produção em Artes Visuais – categoria produção crítica – 2014” e traz trabalhos de diversos artistas que desenvolvem seus trabalhos nos espaços públicos brasileiros.
320 páginas bilingue (inglês e português) editado pela Invisíveis Produções de São Paulo.
Cities are, by nature, areas of continuous motion. We are able to notice in Brazil, particularly over recent years, the ongoing transformations of many different orders: gentrification, real estate speculation, large-scale investments, and a lack of respect towards historical and symbolic heritage. These actions frequently distort the public character of urban space, turning it into a mere area of financial exploitation and hindering the creation of meeting places, which allow for collective and public coexistence. Parallel to this, around the world, we may also notice a renewal of public spaces as areas of convivial and political nature, as well as of public and collective accomplishment of projects. This renewal, in great part, is also a reaction towards the political processes involving the Brazilian public sphere and the world.
Under this context, a series of artistic projects are in ongoing activity in the public/urban space, being known as works of urban intervention, participatory art, collaborative art, relational art, contextual art, etc. These works exist within a perspective which involves an idealistic scenario of artistic dissolution in public spheres and the political redesign of artistic practices. They allow art itself to circulate through different spaces, other than the institutional spaces traditionally dedicated to it. This leads to the emergence of a cultural practice where work processes are visibly influenced by other fields of knowledge – such as anthropology, sociology, history, architecture and urbanism.
This book has the goal: to amplify the comprehension of the role art has in the urban imaginary and the establishing of urban sensibility, tightening the political and artistic dimension of works acting within social contexts.
MORE ABOUT THE BOOK: MAIS SOBRE O LIVRO:
https://arteparaumacidadesensivel.wordpress.com
Manifesto
por uma cidade lúdica e coletiva,
por uma arte pública, crítica e poética


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